Design de Cafeterias: O Projeto Borém Cafés Especiais

O café especial pede tempo, olhar atento, técnica, bons grãos e, claro, um equipamento à altura. De modo semelhante, o design de cafeterias também exige esse olhar cuidadoso. Ele demanda escuta, contexto e presença.

Como arquiteto, vejo o design como um diálogo entre função e emoção. Minha trajetória tem sido marcada por projetos que acolhem memórias, despertam sentidos e criam vínculos afetivos. Gosto de mergulhar nas histórias que os clientes compartilham comigo, para que elas possam ser traduzidas em linhas, cores e atmosferas que deem forma a cenários únicos e significativos.

Todo projeto carrega uma narrativa — e meu compromisso é preservar essas histórias ao longo de todo o processo criativo.

Arquitetura sensível e inspirada pela arte

Minhas inspirações vêm do universo das artes — afinal, a arquitetura é, para mim, uma forma de arte viva. Por isso, valorizo uma arquitetura que conversa com as vivências de quem vai habitar o espaço. Uma arquitetura que não se impõe, mas que escuta, traduz e respeita.

Hoje, mais do que nunca, os espaços refletem a alma de quem os ocupa. Eles contam histórias, mesmo que nas entrelinhas, sobre as pessoas que ali vivem, trabalham ou simplesmente passam.

Design de cafeterias como expressão estética e funcional

No universo do café, as cafeterias também deixaram de ser apenas ferramentas funcionais. Elas compõem a estética do espaço, dialogam com a arquitetura, reforçam a identidade da marca e participam ativamente da experiência de quem consome.

Foi com essa premissa que nasceu o projeto da Borém Cafés Especiais, em Lavras, Minas Gerais.

Memória urbana como ponto de partida

A Borém não ocupa um prédio histórico, mas carrega a missão de resgatar uma memória quase esquecida. Localizada em uma rua que, no passado, reunia construções coloniais marcadas por traços rebuscados e elegantes, a cafeteria se posiciona como um gesto de reconexão com essa herança.

Hoje, poucas dessas construções resistem. Ainda assim, o asfalto soterrou os trilhos que cruzavam essa via — um lembrete silencioso do tempo que passou, e que merece ser relembrado.

O bonde de Lavras e a arquitetura como resgate histórico

A história desse bonde remonta ao início do século XX. A Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM) implantou a linha com o intuito de melhorar a mobilidade urbana de Lavras, na época em pleno desenvolvimento. O bonde começou a circular em outubro de 1911 e, por anos, fez parte do cotidiano da cidade, transportando pessoas, ideias e afetos.

Hoje, com a EFOM desativada na região, os trilhos seguem escondidos sob o asfalto, como vestígios de uma cidade que pulsa memória.

Design de cafeterias como elo com a cidade

A própria cidade de Lavras guarda uma longa trajetória. Fundada como arraial em 1729, foi elevada à categoria de vila em 1831 — data que passou a ser celebrada como seu aniversário, mesmo que a formalização como cidade tenha ocorrido décadas depois.

Essa cronologia moldou um imaginário afetivo e cultural rico, que permanece latente em cada esquina, mesmo quando os marcos visíveis do passado já não existem mais.

Elementos arquitetônicos de desing que contam histórias

Foi exatamente nessa ausência de memória preservada que o projeto da Borém encontrou seu ponto de partida. Os arcos da fachada reinterpretam elementos da arquitetura histórica da cidade, enquanto as esquadrias metálicas evocam, em seus perfis horizontais, os trilhos esquecidos do bonde.

Ilustração da fachada da cafeteria. Por: Vinícius Messias.
Ilustração da fachada da Borém Cafés Especiais. fonte: Vinícius Messias

A materialidade também desempenha um papel narrativo importante: a pedra madeira, escolhida para revestir a caixa da fachada, remete diretamente aos grãos de café. Sua textura transmite solidez, e seu relevo, com camadas irregulares, remete à superfície de um grão — rústico, intenso, cheio de história.

Sentido tátil, memória e afeto

Assim como o café, a pedra escolhida carrega consigo uma sensação tátil quase instintiva, como se pedisse para ser tocada. Em Minas, esse vínculo entre material e memória vai além da estética: aqui, o café não é apenas uma bebida, mas um gesto de afeto.

O mineiro nasce sendo apresentado a ele pelo cheiro do coador, pelo som do bule, pela mão da avó. Nesse encontro entre matéria e lembrança, a arquitetura mantém vivo um elo invisível entre espaço e sensibilidade.

Equilíbrio entre passado e presente no design da cafeteria

Mas o projeto da Borém não se fecha em nostalgia. Pelo contrário: ele equilibra passado e presente de forma fluida. Se por fora remonta o que um dia existiu, por dentro revela linhas contemporâneas que abrem espaço para novas leituras.

No interior, o visitante é conduzido por um balcão de curvas orgânicas que, mais do que funcional, tem vocação cênica. Seu desenho convida a entrar, fluir, observar. Ali, na cena principal, os equipamentos ganham protagonismo.

Equipamentos em cena: função e design integrados

As cafeteiras aparecem em cena, não se escondem. Como objetos de design, exibem acabamento preciso, formas elegantes, cores sóbrias e presença marcante. Elas não apenas preparam o café — representam a essência do ritual.

Esse cuidado com os equipamentos segue um princípio fundamental: o preparo do café também é experiência. E, sendo assim, os objetos que a viabilizam precisam compor essa experiência por completo.

Design e equipamentos que enriquecem a experiência do café

Na Borém, isso se traduz em escolhas que valorizam o ritual: cafeteiras, prensas, coadores, balanças, chaleiras — tudo fica à vista, tudo compõe. O design dos acessórios dialoga com o projeto arquitetônico, reforçando a ideia de que a estética também comunica valor.

A planta da cafeteria integra produção e consumo de forma sensorial. Ao entrar, o visitante encontra de um lado a loja e, do outro, a área de torra. Ali, é possível ver o café sendo torrado, sentir o aroma se espalhar e entender o processo que antecede a xícara.

Os assentos em canto alemão, voltados para a área de preparo, reforçam essa ideia de envolvimento e acolhimento — traços muito presentes na cultura mineira, onde o café não é bebida solitária, mas pretexto para o encontro.

Elementos simbólicos que enriquecem o design do espaço da cafeteria

O espaço ainda conta com elementos que ampliam essa experiência. Um deles é a presença do verde, com espadas-de-são-jorge — planta comum nas casas mineiras e em todo o Brasil, conhecida por sua beleza ornamental e pela crença popular de que afasta energias negativas.

Imagem do interior da Cafeteria, mostrando a integração entre paisagismo, design e ambiente.

Sua inclusão no projeto vai além do aspecto estético: ela carrega memória, simbologia e proteção.

Junto a isso, o uso de um plano de muxarabi ao fundo transforma a luz do dia em desenho. À medida que o sol se move, as sombras projetadas pelo muxarabi redesenham o ambiente. O tempo, nesse espaço, também se move com delicadeza.

Torra à vista: transparência e sensorialidade

A torrefação, nesse contexto, não se resume a uma etapa da produção — torna-se um espetáculo sensorial. Na Borém, ela acontece ali mesmo, diante dos olhos de quem chega. A máquina de torra, posicionada de forma estratégica, pode ser vista de diversos pontos do espaço.

E, mais importante, pode ser sentida. O cheiro do café torrado ultrapassa os limites físicos da cafeteria e alcança a rua, despertando a curiosidade de quem passa e convidando-o para dentro.

Balcão central: o coração do design da Cafeteria

Esse aroma denso e acolhedor atua como um fio invisível de conexão. Ele puxa memórias, abre o apetite, cria desejo. Ao mesmo tempo, a decisão de deixar a torrefação à mostra reforça uma ideia essencial: a transparência no processo.

Mostrar o café sendo feito, permitir que o cliente acompanhe de perto as etapas da torra, entender o tempo de cada coisa, o cuidado com cada lote — tudo isso transforma o consumo em experiência.

Foi com esse pensamento que o desenho do balcão surgiu. A peça, que ocupa posição central na cafeteria, guiou várias decisões do projeto. Ela não apenas organiza o espaço — move-o. Com suas curvas orgânicas e linhas fluidas, o balcão puxa suavemente o visitante para dentro, como se o aroma do café guiasse seus passos.

Uso de formas orgânicas para convidar o cliente a percorrer os espaços da cafeteria com fluidez e bem estar.

Design de cafeterias como gesto de hospitalidade

Essa forma não nasceu por acaso: ela traduz visualmente o efeito que o café provoca. Uma espécie de levitação sensorial. Um convite a desacelerar, a observar, a se entregar.

Mais do que um elemento funcional, o balcão se apresenta como uma peça de design de cafeterias com potência arquitetônica. Ele conecta a área de atendimento com o preparo, sem criar barreiras, ao mesmo tempo em que organiza o fluxo dos clientes, conduzindo a experiência de forma natural.

As cafeteiras e acessórios que repousam sobre ele não estão ali apenas para cumprir uma função: integram-se ao ambiente, valorizados e visíveis. São protagonistas de um ritual.

Conclusão: onde o design encontra a memória

Ao projetar a Borém, compreendi que o espaço também media o afeto. E que o café, mais do que uma bebida, é um gesto.

Ao cuidar de cada detalhe — dos arcos da fachada até a curva do balcão, do cheiro da torra até a sombra do muxarabi — o projeto cria um lugar onde o tempo desacelera, onde a cidade reencontra sua própria história e onde cada pessoa pode, por alguns instantes, apenas estar. Ver, sentir, provar.

Porque, quando o design de cafeterias está em harmonia com seus equipamentos, sua arquitetura e sua memória, o que se vive ali é mais do que uma pausa: é uma experiência completa.

Autor: Vinícius Messias.

Arquiteto e Urbanista.

messiasarquitetura@gmail.com

+55 35 9 9875 6685

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *